sábado, 20 de novembro de 2021

A Grande Ilusão

 Por: David Vega

All the King´s Men, no Brasil, “A Grande Ilusão” (não confundir com um livro de mesmo nome sobre a Primeira Guerra Mundial), filme que mostra a ascensão de um político que vem de baixo, tal história estamos cansados de ver com exemplos ao longo dos séculos. Ambientado no estado da Louisiana, boa parte em New Orleans, em meio aos arranjos de blues dos banjos e bandolins, o filme começa com o assessor de Willie Stark (Sean Penn), que é o político em questão, falando em ideologia, pronuncia a frase “o que você não conhece não te machuca”. O jornalista que faz o papel de assessor dele é interpretado por Jude Law.

Stark é um homem do povo que sabe ler a psiquê das massas. Muito disso ele usa na sua profissão, um vendedor de cosméticos que bate de porta em porta, convencendo as pessoas comprarem seus produtos. Um certo dia, é convidado para integrar um partido político e conhece homens que estão dispostos a lança-lo como candidato a governador, dadas às suas habilidades. Exímio orador, ele começa em seus comícios a reunir cada vez mais pessoas, que vão ao delírio com suas promessas. Em uma passagem do filme, lhe perguntam como ele consegue tal façanha, e ele responde: “Eu falo o que eles querem ouvir, sobre impostos, obras, salários etc”.

O filme tem vários diálogos interessantes. Em uma ocasião, Stark diz “uma vez lá em cima, o homem esquece quem ele é, de onde veio” (nada mais comum e atual quando vemos tais figuras na nossa política). Ele tem manias também que as usa como bandeiras para reforçar sua personalidade como homem simples e do povo, a mais notória, tomar refrigerante com dois canudinhos. Faz seus discursos de cabeça, dispensa roteiros.

“Sou caipira como vocês, não sou um acadêmico ou politico de carreira, cria do sistema, um almofadinha!” – Enfatiza. Também sempre usa a palavra de Deus.

Põe a culpa nos cidadãos das grandes cidades que enganam os caipiras, diz que sua campanha é feita pelo dinheiro dele, que irá construir universidades para todos, não só para os filhos dos ricos estudarem. O povo não apenas vê nele uma esperança de mudança, mas se reconhece na sua figura, pois é “gente como a gente”.

Os velhos gordos do senado não votaram nele, o narrador, que é o jornalista que conta a história, afirma que os políticos convencionais votam nos representantes das petroleiras que lhes enchem os bolsos, mas mesmo assim, Stark ganha para governador.

Ele se torna populista e corrupto, representado no filme com as botas na mesa feito um coronel, os encarregados lhe dizem que o Estado não tem verbas, dinheiro o suficiente para ele fazer o que havia prometido, e sem entender de Economia, não está nem aí, e manda eles se virarem para conseguirem pagar (nesse caso, não existe um teto de gastos a ser respeitado, bem típico dos demagogos que saem gastando adoidado com políticas públicas, muitas inúteis, que arrecadam votos).

Outra passagem interessante é um diálogo em que o jornalista indaga: “devo trabalhar para quem? Para o Estado?”, e o governador eleito responde: “Não, para mim” – (me lembrei nesse momento do “O Estado sou eu”, frase pronunciada por Luís XIV no auge do absolutismo.

Destaco também uma, em que um político tradicional da câmara diz: “Os políticos novos idiotas pesam que o mundo é de graça, quem irá pagar toda demagogia? O contribuinte!”.

Desrespeitando a Constituição do estado, ele consegue manipular o jornalista, que se torna mais que seu assessor por debaixo dos panos, mas um fiel seguidor, publicando o que interessa a seu chefe, fazendo panfletagem-propaganda do governo no jornal a qual trabalha.

Stark anda sempre com um gunslinger (pistoleiro), ágil e hábil no revólver, que é seu guarda-costas, capaz de fazer tudo pelo chefe, até eliminar opositores. É aí que aparece o personagem interpretado por Anthony Hopkins, representando os conservadores que querem derrubar Stark. O jornalista se sente incomodado por usar toda a sua erudição para defender um homem ignorante e rude, indo em contra de todo seu polimento e crença na democracia. Ele se sente inclusive envergonhado diante dos demais políticos que articulam uma movimentação pelo impeachment de Stark, sobretudo porque o jornalista foi praticamente criado pelo político conservador interpretado por Hopkins, e se vê diante de uma sinuca de bico, pois não quer trair tudo o que aprendeu com seu velho mestre, que lhe ensinou a ética e o real jogo legalista da política.

“Você trabalha para mim pelo jeito que sou, é isso que te atrai” – Diz em certo momento o governador autoritário para ele. No palanque, discursando, o déspota diz que as velhas ratazanas da política querem derrubá-lo, e o povo se revolta em seu apoio. Possivelmente a história foi baseada no político sulista Huey Long, conhecido como o Kingfish, que foi também senador do estado da Louisiana nos anos 1930. Atacava os Rockfeller e propunha a divisão da riqueza, além da taxação de grandes fortunas. Figura ambígua, e a forma do Cinema o retratar não é ocasional também.

O governador megalomaníaco almeja a Casa Branca, sonhando em ser presidente e tornar todo o país hipnotizado por sua figura igual fez com seu estado pequeno. Há uma passagem que ele (o jornalista) pergunta quem era o presidente em 1938, se referindo ao banco, do qual investiga, para que se libere uma verba de que não tem, destinada à construção de um hospital para o povão (os caipiras como ele se refere), e a bibliotecária responde: “Franklin Delano Roosevelt”, então ele fala que perguntava quem era o presidente do banco, não do país na época. Eu não saberia dizer se é uma referencia ao imaginário do New Deal, medida que até hoje é vista como populista pelos norte-americanos, devido a interferência do Estado para se recuperar a economia depois do crash de 1929, idealizado por Keynes, semelhante o que Vargas fez aqui no Brasil. Talvez tenha sido intencional, para fazer uma analogia aos populistas.

A paisagem do filme é muito bacana, me lembra quando morei na costa leste, na Carolina do Sul, com os robles espanhóis (carvalhos) e os típicos musgos dos pântanos com aligators. O personagem de Jude Law consegue uma carta para incriminar e usar politicamente em favor do seu “patrão”, prejudicando Hopkins - está cada vez mais atrelado e envolvido nas loucuras do governador. Ele emprega um amigo de infância (Mark Ruffalo) falido que precisa de dinheiro para participar dos projetos ousados do político, mas este fica entre a oportunidade tentadora de enriquecer e sair daquela inércia, passando por cima de seus princípios, pois ele parece ser um democrata, e salvar a sua biografia.

Stark compra os juízes, a corte, disse que exige que o juiz esteja em seu favor, ou ao menos não contra ele. Seus surtos histéricos lembra um pouco o Hitler caricato, diferenciando-se pelo corte de cabelo e o bigode, é claro. Com o tempo, opositores começam a ser mortos e perseguidos.

O governador Stark se encaixa perfeitamente no déspota de direita ou de esquerda, seu discurso populista lembra em vários momentos os bordões de Lula, Perón, ou o imortal “Trabalhadores do Brasil” de Vargas, o autoritarismo não é algo propício de um espectro apenas, e no momento, no mundo, vivemos o embate do radicalismo de um lado, contra o do outro, não é tempo de moderação, e vejo vários possíveis Starks por aí, gerando fanáticos, seduzindo e cooptando inclusive intelectuais, como o jornalista porta-voz seu, cuja razão se manifesta por vezes, e nos momentos de lucidez ele se pergunta “o que está fazendo”, mas logo a aura exótica do carisma do projeto de ditador, o atrai, fazendo ele usar sua habilidade da escrita e investigativa, para beneficiar o governador.

Tal fato é bem comum na História. Ora, Hitler conseguiu cativar um dos povos mais cultos da Europa, o país do Hegel, do Schopenhauer, Nietzsche, Goethe etc. Muitos ainda se perguntam como isto foi possível, uma inflação astronômica que faz um cidadão levar um carrinho cheio de marcos para comprar um pedaço de pão pode explicar talvez.

As crises vêm e vão, a questão é, você conseguirá se manter um democrata nas situações adversas? Em tempos que a situação é acusada de não respeitar a constituição, por aqueles que deveriam guardá-la, sendo arbitrário tanto quanto ou pior?

É claro que Hollywood faz uma crítica a este perfil de político, o carismático, nenhuma obra de arte é isenta de intencionalidade, e um Perón sempre será visto com bons olhos ainda por muita gente na Argentina, bem como Juan Gómez na Venezuela ou até o Vargas no Brasil (ainda chamado de “pai dos pobres”). Eu lembro uma vez de conversar com um turco enquanto esperava um avião na conexão no aeroporto Ataturk em Istambul, e ele disse que o líder do qual o aeroporto leva seu nome modernizou o país e os turcos devem muito a ele. Figuras assim, personificadas, ao mesmo tempo que produzem ódio, também geram uma legião de seguidores, que perpassam os tempos, muito diferente daqueles burocratas que legislam apenas cumprindo ordens e não andam entre o povo, estes, depois de seus mandatos ninguém os recordará.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Todos os Homens do Presidente


Por: David Vega

Há uns anos eu, nas minhas andanças pelo centro de São Paulo, encontrei em um Sebo uma promoção de queima de estoque. Na leva, podia-se comprar livros e DVDs de preço baixo. Minerando entre títulos muito fracos, eu encontrei entre uma pilha de caixas de filmes um em especial. Na capa tinha a imagem de Dustin Hoffman e Robert Redford. Eu já conhecia os filmes do Hoffman, ator que teve seu auge durante os anos 1970, meus favoritos são o “Liberdade Condicional” e um outro em que ele já era mais maduro, interpretando um autista, contracenando com o Tom Cruise, na década seguinte, “Rainman”, cuja atuação é brilhante. Então, devido o histórico deste que era um dos protagonistas, resolvi levar o filme, convicto que seria uma boa escolha.

Ao chegar em casa, acabei deixando o DVD de lado e nunca mais o peguei. Anos se passaram e muitos dos meus filmes favoritos acabaram por migrar aos streamings, então, quando queria rever algum, não me dava ao trabalho de ligar o aparelho leitor dos discos. Porém, em um domingo mórbido, recentemente, arrumando algumas tralhas antigas, voltei a encontrar o filme que comprei, empoeirado. Finalmente, abri a caixa e decidi dar uma chance.

Bem, o momento foi bem oportuno, dado semelhanças da trama ao cenário político atual. Eu já tinha ouvido sobre o caso Watergate, mas após assistir à sessão, pude compreender em detalhes. O filme tão misterioso é o “Todos os Homens do Presidente”, produção de 1976, ganhadora de 4 Oscar, baseado no livro de Bob Woodward (interpretado por Redford no filme) e Carl Bernstein (Hoffman) ambos jornalistas que mudaram o curso da História americana após uma investigação ousada e perigosa.

            O caso Watergate foi um roubo de documentos no complexo de escritórios que leva este nome em Washington, sede do comitê nacional do Partido Democrata. O filme começa com 5 “ladrões” que teriam invadido um dos escritórios e foram pegos pela polícia. A partir de então, os dois jornalistas do Washington Post decidem averiguar o caso, pensando ser um possível furo editorial (furo é o jargão para a informação publicada antes de todos os demais, quando uma equipe consegue apurar uma notícia e a publica sem que os veículos concorrentes tenham acesso). 

Woodward consegue a informação de que um tal de Charles Colson, que possivelmente tinha ligações com agências de inteligência dos EUA, era também novelista de ficções sobre investigação (a arte imita a vida, a realidade é mais inverossímil que a ficção!). Descobrem que um sujeito conhecido como Hunt (que trabalhou para Colson na Casa Branca) tomava emprestado livros sobre Kennedy, deixando rastros no histórico de empréstimos em uma biblioteca (a sua ficha de biblioteca pode dizer muito sobre você! Denunciá-lo!). Colson era além de escritor, conselheiro do presidente Nixon.

Hunt também esteve à frente na campanha de Eisenhower, em 1952. No julgamento dos 5 ladrões que foram detidos, entre eles alguns cubano-americanos anticomunistas de Miami estavam envolvidos. O jornalista então recebe uma mensagem de alguém que quer abrir o bico, pedindo para ele deixar uma bandeira vermelha hasteada na sacada de seu apartamento, no caso da resposta ser afirmativa, feito isso, ele vai ao encontro do possível “traidor”, no estacionamento de um shopping já fechado.

Com o passar do filme, do qual o jogo de câmeras proposital constrói uma narrativa envolvente, sendo outra coisa que reparei, é que não tem trilha sonora, apenas os jingles de Nixon de sua campanha à reeleição enquanto a TV está ligada nas noites em claro que os jornalistas escrevem, o jovem em busca de um furo acaba sabendo que foi pago 25 mil dólares a um dos ladrões envolvidos em Watergate. Há um momento do filme que os jornalistas encontram o recibo do cheque depositado, mudando o curso da investigação.

Ligando as pistas, em pleno ano de eleição, muito possivelmente os capangas do episódio estavam ligados ao comitê de reeleição do presidente. Além de toda a trama no mundo da política, aliás, é para quem gosta de filme de investigação, onde as pistas vão surgindo e se encaixando, fazendo sentido, sobretudo no mundo do poder, muito antes do fenômeno House of Cards, já havia este filme, pouco falado no Brasil. O interessante é que a investigação ocorre com dois protagonistas que não são detetives de polícia, mas jornalistas! Profissão que com o passar do tempo perdeu a essência para criar acomodados leitores de teleprompter. A atitude dos dois personagens traz um pouco daquele jornalismo de John Reed, Victor Serge ou Hemingway, o investigativo, que é na verdade quase uma etnografia antropológica.

Outro ponto relevante também é a relação dos mesmos enquanto estão no processo de criação da matéria com o editor chefe. Ali na redação, como em qualquer instituição composta por pessoas, há diferentes pontos de vista, e ir contra o governo, pode desagradar os que de alguma forma possuem ligação com ele, ou apenas por convicções pessoais concordam com quem está no poder. O que o jornalista preocupado com os fatos e não com a opinião deve fazer então? Há uma passagem do filme que mostra os editores manipulando as notícias através dos recortes, selecionando frases e chamadas que interessam, e ocultando outras. É bacana o ambiente do filme, mostrando como funciona uma redação de um jornal grande, nos anos 1970, podemos ver os periodistas em suas máquinas de escrever, fumando cigarros e usando calças boca de sino.

O editor ao passar do tempo começa a se contagiar pelo trabalho dos dois jornalistas. Porém afirma em certo momento que se a história do Watergate for falsa, é perigoso se estiverem enganados, podendo comprometer a legitimidade do veículo de imprensa, publicando algo contra um governo na época com popularidade (naquela época ainda havia um pouco de ética).

Eles conseguem uma lista com o nome de todos que trabalhavam para o presidente, nisso, recebem a notícia de que Richard Nixon é reeleito. Enfim, não vou mais dar spoiler, apesar de todos que gostam de História conhecerem o desfecho do caso. O caso Watergate na verdade revelou que o governo de Nixon usava o FBI e a CIA para investigar a oposição e plantar notícias falsas contra seus rivais, igual fazia a Gestapo ou a KGB. O “roubo” do complexo, na verdade foi uma desculpa para técnicos repararem aparelhos de escuta telefônica que possivelmente estavam danificados. Atitude ilegal durante a eleição, pois o candidato à reeleição estava se utilizando de medidas trapaceiras.

A imbricação do jornalismo com a política, quando uma se torna um braço da outra, é perigosa. E aqui não estou entrando no mérito se é “direita” ou “esquerda”. É triste ver o que se tornou o jornalismo no mundo hoje, de um lado uma espécie de militância de agendas e pautas visando a narrativa de um politicamente correto através do que vulgarmente se chama no Brasil de “lacração”, e do outro, veículos destinados a justificar qualquer atitude de quem está no poder, feito a Telesur quando entrevistava o Hugo Chávez. Ora, as atitudes desonestas para se alcançar os objetivos na política sempre existiram, lembram do incêndio do Reichstag, quando culparam os comunistas? As cartas falsas de Arthur Bernardes? Ou o Plano Cohen, que justificou o golpe do Estado Novo no Brasil? – “O fim justifica os meios” – já dizia Maquiavel (embora alguns afirmem que ele nunca teria escrito isso). É bem diferente dos processos legais contra presidentes que sofreram impeachment, feito o Collor, por conta do Fiat Elba e o caso PC Farias ou as pedaladas de Dilma Roussef. Estamos falando de casos em que realmente houve uma arbitrariedade.

Lembro de um colega de faculdade filiado a um partido de esquerda que reclamava, na época, por volta de 2011, que os norte-americanos sempre usavam a desculpa da Constituição para justificar as suas medidas, sendo ele um defensor da “revolução”, não conseguia entender o porquê deles não enxergarem além do legalismo. Enfim, hoje, eu vejo a esquerda, que é oposição, fazer exatamente o mesmo, vivem citando a Constituição (que o PT não votou nos 80) como se fossem guardiões desta. Cada lado do jogo político em questão invoca sua interpretação das quatro linhas. Vivemos hoje no mundo um cenário diferente, em que não existe mais o fato em si, seria a pós verdade? Não existe mais uma “versão oficial” da notícia. O que eu vejo com bons olhos, pois hoje, um sujeito com um celular de dentro de seu quarto pode competir com grandes conglomerados de mídia, que convenhamos, também reproduzem Fake News visando os seus interesses. A mídia sempre fez isso! Antes era a mais criticada pela oposição, agora que reproduzem o discurso que querem ouvir ela se tronou santa? (o mesmo em relação à suprema corte). A mídia convencional sempre teve o poder de construir óticas “aceitas” pela massa e eleger ou derrubar quem quisesse, destruindo reputações. Nunca me esqueço do caso do sequestro de Abílio Diniz, embora fui me interessar posteriormente, pois na época era muito criança. Do qual a emissora mais influente do país reinava em absoluto, desrespeitando a Constituição, que hoje se creem ser os reais guardiões.

Há um trecho do filme em que o editor diz, e faço dele as minhas palavras, que o que realmente importa naquela investigação toda é fazer valer o artigo primeiro da Constituição (dos EUA); a Liberdade de expressão e imprensa. Que isto sirva não só para governantes tidos como despóticos, mas para a suprema corte, que possui ministros com poderes concentrados inflados que a desrespeitam, perseguindo pessoas por crime de opinião. Não é por acaso, e faz sentido, o sujeito se considerar um preso político atualmente. A histeria tomou conta de uma sociedade mundial polarizada, do qual o processo eleitoral pode sim ser questionado, pois ninguém mais confia no sistema e se sente representado pelas instituições.

Sabemos que Hollywood majoritariamente é pró Partido Democrata, e é claro que vão endossar a narrativa contra os republicanos, salvo quando é uma figura histórica como o Lincoln. É preciso analisar friamente as coisas, óbvio que Nixon errou, o que causou seu impeachment em 1974, tendo ele renunciado logo depois. O termo “gate” nos países de língua inglesa, após o episódio, se tornou uma gíria para “escândalo”. Não compro o discurso de nenhum lado, mas reconheço que sobretudo no cenário global hoje, todos desrespeitam a democracia e fazem Fake News em nome de seus objetivos, sendo hipocrisia acusar só os opositores daquilo que você também faz.

Assistindo um filme de investigação jornalística que mudou a História como esse, vejo o quanto os profissionais de hoje da área são mesquinhos e revira o estômago acompanhar o que a categoria se tornou hoje.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Liam (2000)

 Por: David Vega.    

 


Liam é um garoto que tem dificuldade de falar, mas seus olhos já dizem muito. Ele é o mais novo de uma família de ingleses da Liverpool dos anos 1930. Os personagens do filme não tem nome, apenas o garotinho que a tudo observa como espectador das transformações de sua família, estas também são as da sociedade marcada pela crise pós 1929 e o crescente desemprego, com isso, os trabalhadores humilhados pela falta de trabalho, começam a se seduzir pelos discursos do Partido Comunista. O irmão mais velho de Liam adentra às fileiras dos vermelhos, enquanto com o passar do tempo, o pai (interpretado pelo grande ator britânico Ian Hart do célebre “Terra e Liberdade”) passa a culpar os irlandeses e os judeus pela crise. O pai, que no início do filme não se importa quando os vizinhos perdem seus empregos, dizendo que ele ainda tem o dele (uma espécie de distinção, ele se vê como diferente dos demais por conta disso), tão logo se torna mais um dos desempregados que precisa se sujeitar à fila do seguro social que lhe dá migalhas.

Em paralelo, Liam está prestes a fazer a sua primeira comunhão, e o pai também começa a culpar os católicos e os padres que seriam parasitas, com o argumento nacionalista de que os verdadeiros ingleses são protestantes, segundo ele os sacerdotes católicos viviam de doações de poucos xelins suados dos moradores do bairro operário, quase que um cortiço, visivelmente degradado. No início do filme, pouco antes da crise, as famílias se reuniam e celebravam o ano novo, já no decorrer, os moradores começam a pedir dinheiro emprestado uns aos outros, e brigas surgem, por conta de cada moeda que faz diferença no orçamento da casa. A desunião, além da questão financeira, vem com a polarização política, em uma passagem do filme, o pai aparece em um comício do Oswald Mosley, líder da British Union of Fascist (BUF) e seus camisas negras. Desentendimentos em casa se intensificam com o filho mais velho que é comunista.



Não bastasse isso, a filha do meio consegue um emprego de doméstica em uma casa de família judia, e a dona passa-lhe a meio que adotá-la, a vesti-la e alimentá-la, dando presentes e perfumes, mostrando-a um mundo muito distante da vila operária de onde ela vem. Ela precisa esconder de seu pai fascista que o dinheiro que traz em casa vem de uma patroa judia. Cada vez mais humilhado por não conseguir emprego, o pai vestindo o uniforme dos fascistas começa a se radicalizar, inclusive a participar de atentados. Liam ao mesmo tempo que presencia tais crises, é assombrado pelo medo do pecado que o professor padre de sua escola incute nas crianças.

É um filme sensível, apresenta o que somos capazes de fazer no limite da solidariedade humana, esta que é solapada por um individualismo vindo de todos os lados, por aqueles que precisam pensar no estômago dos seus antes da fome do vizinho. É na crise que as pessoas mostram quem são, e na radicalização política, não sobra tempo para o convívio dos contrários, mesmo entre pai e filho.

Impactante! Há tempos me foi recomendado por um amigo ainda no Ensino Médio, e só fui assistir hoje. Tem completo dublado em espanhol no YouTube, recomendo, é baseado em um livro de Joseph Mckeown, que ainda irei ler, pois se o filme consegue sintetizar todo o espírito da crise e o lado mais obscuro da natureza humana, imagino que a obra escrita proporciona diálogos ímpares!

Assistir a este filme, dirigido por Stephen Frears nos tempos de hoje não é apenas uma reflexão, mas proporciona aquilo que a arte sempre fez, nos dá combustível para lutar, ou apenas ver as entrelinhas, que não são nem tão subjetivas assim, em uma realidade bruta que nos assola, lembrando muito a Liverpool e a Europa como um todo dos anos 1930. 


quinta-feira, 15 de julho de 2021

As Aventuras de Hans Staden

Por: David Vega.



Muito se fala da obra mundialmente conhecida “Robson Crusoé”, de Daniel Defoe, referência na temática sobre naufrágios, ou sobre a vida do homem em seu estado de natureza. Mas poucos sabem de outro relato, este, verídico, ao contrário do livro de Defoe que é uma ficção, as memórias do aventureiro alemão Hans Staden no Brasil podem dar-nos uma ideia de um país inexplorado, com pequenos povoamentos na costa e a descrição que faz dos nativos e suas práticas.

Quando Américo Vespúcio lança seu famoso “O Novo Mundo”, batizando o recém descoberto (revelado) continente ao velho mundo com seu nome, as histórias de viajantes que aqui estiveram passaram a alimentar a imaginação e o interesse da jovem imprensa, na época da revolução da prensa de Gutemberg, propiciando a publicação de grandes tiragens de livros que logo se espalhavam pela Europa. Porém, muitas destas histórias eram aumentadas, ou até inventadas, por muitos que queriam fazer seu nome e se tornarem famosos a qualquer custo. Logo as lendas de fontes da juventude, de rios de ouro e fórmulas mágicas de feiticeiros que davam virilidade potencializada tornaram-se populares (até os dias de hoje). O que faz a obra de Hans Staden única, é que ele a relatou para um ghostwriter que foi fiel à sua descrição e depois confirmou com outros que aqui estiveram e o conheceram que aquilo tudo procedia, ele jamais mentiu! Depois da carta de Pero Vaz de Caminha, podemos considerar este documento como aquele de maior importância sobre os anos iniciais de nosso país.

Dentre os muitos títulos que o livro já teve, uma edição da L&PM POCKET de 2019, com prefácio de Eduardo Bueno, leva: “Hans Staden – Duas Viagens ao Brasil”. A primeira em 1548 junto da esquadra portuguesa que aportou em Pernambuco, relatando uma batalha contra os índios Caetés na região de Olinda. Aprendeu o ofício de artilheiro e prometeram-lhe honrarias quando retornasse à Europa.

Na segunda viagem, em 1549, uma vez partindo da cidade de Sevilha, junta-se aos espanhóis e tem como destino a ilha de Santa Catarina, consegue atracar no povoado ali, do qual alguns colonos vinham da região do Rio da Prata, mas sobem a costa, chegando em São Vicente, o que seria o atual litoral sul de São Paulo, cuja capitania levava o mesmo nome. Ali presencia a realidade do conflito entre os nativos, os Tupinambás, pertencentes à confederação dos Tamoios, aliados dos invasores franceses, são inimigos dos Tupiniquins, aliados dos portugueses. É construído um forte em Bertioga, e ele vivencia um ataque da tribo rival pelo mar, que ataca com flechas incendiárias. A batalha lendária entre Tupinambás e Tupiniquins foi registrada pelo viés de um trabalho sociológico pelo Florestan Fernandes, em seu célebre “A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá” (1952).

Partindo com o restante dos portugueses, uma vez recrutado por eles novamente, ele passa por Itanhaém, e naufraga na costa, próximo a Bertioga, é capturado pelos Tupinambás que o tomam como português, ou seja, seu inimigo. Staden falava a língua tupi e conseguia se comunicar com eles, tentou por diversas vezes convencê-los de que não era português, vinha de uma terra chamada Alemanha, e era amigo dos franceses, seus aliados. Mas desconfiados, os tupinambás não acreditam em suas palavras, embora em uma passagem dizem que ele tem barba ruiva igual a dos franceses, e os portugueses tinham barba negra. A prática da antropofagia (canibalismo) era comum entre eles, e desde o seu cativo, eles avisam que mais cedo ou mais tarde irão abatê-lo e comê-lo.

Extremamente religioso, em várias partes do livro, ele reza e mostra a sua devoção ao Deus cristão, chamando seus aprisionadores de selvagens, desdenhando os seus costumes, o que ele chama de blasfêmia, a prática de comerem o inimigo, seja ele português ou tupiniquim da tribo rival. O livro tem uma importância histórica porque ele relata com detalhes a prática da antropofagia, na região de Ubatuba - que se perdeu com o tempo, como um espectador. Em certa ocasião, amarrado, veio pulando pela aldeia, pois seus pés estavam atados, e todos os índios dali riram dele falando “aí vem a nossa comida pulando!”. Ao todo ficou mais de oito meses cativo, e nas várias vezes em que foi ameaçado chegando perto de ser esquartejado e levado à fogueira, teve a sorte de usar de sua perspicácia em convencê-los que o seu Deus cristão iria puni-los. Então, quando adoeciam os homens da aldeia, pediam para ele rezar para seu Deus, e com a melhora dos enfermos, começam a acreditar que ele realmente tem o poder de se comunicar com seu criador e através dele, pedem para “abençoá-los” na guerra, para que venha a chuva etc. Isso impediu que fosse devorado pelos selvagens.

O livro traz o registro da cultura dos Tupinambás, por exemplo a prática de se fazer o Cauim, a bebida alcóolica de milho (chamado de Abati pelos índios) fermentado, o ritual das festividades, dos enfeites; os tupinambás eram extremamente vaidosos, adornavam-se com penas e pintavam um braço de preto e outro de vermelho, bem como as pernas, o antropólogo Darcy Ribeiro fala no livro “O Povo Brasileiro” que aquilo era “uma vontade de beleza”, e menciona inclusive a obra de Staden. Isso explica a extrema vaidade da mulher brasileira até hoje, e um sensualismo que nos descreve. Também aponta o ritual antropofágico: Na noite anterior ao abate é dado ao prisioneiro uma mulher para alimentá-lo e servi-lo sexualmente. No dia seguinte, primeiro as mulheres da aldeia dançam em torno da vítima, amarram-no os pés com uma corda, e com um tacape golpeiam-lhe a cabeça, que é separada do corpo. As vísceras são misturadas e dadas às crianças em uma cuia, um prato chamado Mingau (que chamamos até hoje, sem ser de humanos, é claro!), as pernas e os braços são assados e consumidos temperados com pimentas verdes. Ele explica que aquilo não é feito apenas pela necessidade de se alimentar, mas é devido a um ódio à vitima do grupo rival, esta que antes de morrer diz: “eu tenho muitos amigos e eles virão para me vingar!”Há a versão popular de que os tupinambás, ao comerem os inimigos, pensavam adquirir a coragem deles e como Staden parecia ter tanto medo, eles não quiseram comê-lo. No livro ele tenta persuadir os índios, que com o tempo passam a tê-lo como místico. Mas tem uma passagem em que dois mamelucos cristãos são capturados e choram de medo, e mesmo assim são comidos. Em outro trecho também é levado a um francês comerciante de pimentas, e os tupinambás mandam eles conversarem para saberem se realmente ele não era um “pero” (nome dado aos portugueses, talvez por conta de Pedro Álvares Cabral). Como era alemão, não entendia o que ele falava, e o francês diz “Este é um autêntico português, podem comê-lo”. Staden então lembra da famosa citação bíblica “Maldito é o homem que confia em outro homem”. Na edição que li tem as ilustrações clássicas que dizem ter sido feitas pelo próprio punho de Hans. Não darei detalhes de como Staden conseguiu escapar, vale a pena ler o livro.

Após publicado foi um sucesso na Europa, sendo traduzido para o holandês, inglês e latim. Vergonhosamente apenas veio ao Brasil em 1892, as melhores tiragens foram as edições comentadas pelo grande historiador negro Theodoro Sampaio. Popularizou-se pelo Monteiro Lobato que escreveu uma versão contando as aventuras de Hans Staden através de sua personagem Dona Benta do Sítio do Pica Pau Amarelo, e também influenciou Paulo Prado, quem financiou a Semana de Arte Moderna de 1922; pessoas como Tarsila do Amaral, que pintou o famoso quadro “Abaporu” (que significa “Comedor de Gente”) e o próprio Oswald de Andrade, no movimento Pau Brasil, com o manifesto modernista antropofágico que visava desconstruir a visão romântica da literatura brasileira, como a de José de Alencar, pela literatura marginal, trazendo metaforicamente a antropofagia e o fato famoso do bispo Sardinha, que naufragou na costa brasileira e foi comido pelos índios.

                                     


 

Em 1999 o livro teve a sua versão cinematográfica mais recente, bem fiel à obra. Além de ser importante para conhecermos um mundo que não existe mais, com práticas exóticas e assustadoras de canibalismo, é de extrema importância por exemplo, para muitos dos paulistanos que descem para o litoral no feriadão ou nas férias, para as cidades de Bertioga e Ubatuba, e ali, repousando com um guarda-sol, nem imaginam que guerreiros tupinambás comiam gente, e que as areias quentes debaixo do sol escaldante faz-nos transportar a um mundo impossível de vivenciar. Um povo que não conhece a sua História não sabe para onde vai.


Vídeo aula minha sobre o tema:

sexta-feira, 5 de março de 2021

O Triste Fim de Policarpo Quaresma e Os Bruzundangas - Lima Barreto

 Por: David Vega.


“As saúvas tomaram conta do Brasil!” – Quem nunca ouviu esta máxima metafórica, referindo-se quando uma caterva assume o poder em terras tupiniquins? Ela vem de uma passagem do livro magnum opus de Lima Barreto (1881 – 1922), “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, pai do pré-modernismo brasileiro.

Afonso Henriques de Lima Barreto, o “triste visionário” (palavras de Lilia Schwarcz), viveu nos subúrbios do Rio de Janeiro durante a transição do século XIX para o passado, filho de uma ex-escravizada e um madeireiro português, na minha opinião, é o maior nome da literatura nacional, equiparado, ou até em alguns casos, ganhando de Machado de Assis.

Apesar de pobre, conseguiu estudar na escola Politécnica ao lado dos filhos da elite carioca, local onde sofreu muito preconceito na época por ser mulato. A discriminação sofrida rendeu-lhe as melhores obras que retratam o Brasil daqueles tempos (e por que não dizer em alguns aspectos o atual?), do qual o desamparo aos negros excluídos nos morros é visível, em uma sociedade na qual a posição de classe tem característica da cor. Barreto chegou a ser secretário da famosa revista Fon-Fon, e denunciava toda a hipocrisia e autoritarismo de um país que imitava as Boulevard e Champs-Élysées parisienses no projeto de urbanização das grandes capitais, como no Rio dos primeiros anos da República, mas empurrava a “escória” indesejável para os guetos segregados que viriam a se tornar as favelas de hoje.

Defensor de uma escrita informal, onde a licença poética trazia termos, gírias e a forma coloquial popular, custou-lhe o impedimento à nomeação para a Academia de Letras, o que Lima critica em seus livros; a elite cultural apátrida rastaquera brasileira, que quer copiar tudo o que vem do estrangeiro e tem aversão ao nacional. Em “Os Bruzundangas”, publicado postumamente em 1922, ele cria um país fictício onde todos os absurdos que ali descreve são muito bem identificados como metáforas ao Brasil.

Monteiro Lobato foi talvez o único que acreditou no potencial de Lima Barreto. No ano de 1916 enviou uma nota à imprensa reconhecendo que o suburbano era um exímio romancista. Barreto chegou a publicar o livro “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” pela editora Revista do Brasil, de Lobato, precursor no mercado editorial, sendo que anteriormente, a maioria das publicações se dava nos folhetins ou a um alto preço das tiragens em Portugal.

O “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, lançado no Jornal do Comércio, em 1911, traz uma crítica aos primeiros anos republicanos, sendo Lima Barreto um filho da transição de dois regimes, e talvez o “passado de glória” do império compusesse a sua imaginação, muito por causa da abolição, embora ele não fosse monarquista, inclusive chegou a colaborar com a revista ABC, de viés socialista.

Policarpo pode ser uma analogia à experiência que o próprio autor teria, sendo um idealista que fora encarcerado em um hospício; Barreto sofria de alcoolismo, e teve surtos psicóticos que o levou às internações, mais de uma vez.

O major Policarpo Quaresma, título que ganhou por uma indicação à Guarda Nacional, era um árduo patriota. Passava a maior parte de seu tempo tentando fazer reformas educacionais no país, apresentou um projeto de lei para alterar o idioma oficial do Brasil do português para o tupi, língua geral da maioria dos índios que aqui viviam. Trabalhava em uma repartição pública e ia portando um cocar, o que provocava chacotas por parte de seus companheiros.

Membro da alta sociedade, acreditava veemente no governo e no presidente (uma referência ao segundo presidente republicano, o militar Floriano Peixoto, que administrou com mãos de ferro). Os militares o usavam, era bom ter Policarpo por perto, pois sua áurea era quase que mística entre o povo que o rodeava, seu amor pelo Brasil, seu idealismo, era contagiante. Ele acreditava nas manifestações populares, tinha como melhor amigo Ricardo Coração dos Outros, quem ele chamava de “o trovador do subúrbio”, ensinava o velho major arranjos de violão e compunha versos que traduziam a beleza natural e espiritual do país. Em uma das aulas, Policarpo é observado na varanda de sua casa por homens comuns que o criticam, olham a estante de livros que ele tem na sala, e consideram aquilo “pedantismo”, indagando “Para que ter tantos livros se nem é escritor ou professor?”. No livro, Barreto descreve os autores que compõem as prateleiras do escritório de estudos; Von Martius (alemão que classificou os tipos de vegetações do Brasil), José Bonifácio (o patriarca da independência), os clássicos não só nacionais, mas universais, livros de filosofia e ciência, entre variados temas. Para o cidadão comum, é incompreensível a devoção ao saber de Policarpo.

O livro ganhou uma adaptação no cinema, em 1998, estrelado pelos atores Paulo José e Giulia Gam, produção esta que eu achei bem fiel ao livro! Tanto na obra, quanto no filme, Policarpo aparece de uma forma caricata, é uma espécie de “Don Quixote” tupiniquim. Há uma passagem em que convida um amigo e sua afilhada para jantar em sua casa, portando um terno verde-amarelo, lembrando as cores da bandeira, e pede à irmã que sirva guando, um feijão silvestre da mata atlântica, pois o feijão convencional seria estrangeiro.

   Barreto sempre orbitou entre o mundo dos excluídos, incluindo o da loucura, do qual pertenceu. Policarpo após se desentender com magistrados que trabalham na repartição pública, é internado em um hospício. Lá ele se torna uma espécie de líder dos demais loucos, que são retratados pelo autor como mais “lúcidos” do que os homens corrompidos que ocupam os cargos de importância do país e que pensam apenas em seus próprios benefícios. O médico do pavilhão acaba caindo na lábia de Policarpo, há uma cena no filme em que ele aponta para uma estante de livros no consultório e diz:

- Está vendo, doutor! O senhor tem este monte de livros, e não os leu!

E o médico responde.

- Você não é louco! É perigoso! É perigoso porque é inteligente!

Deixando o hospício, o personagem vai viver em um sítio, conhecido como “Sítio do Sossego”. Lá muda sua práxis. Começa a plantar milho, de sol a sol, com uma enxada, para assim provar para o mundo que o Brasil é o país da agricultura e irá alimentar o planeta (isso escrito em 1911!). Seu fiel amigo Felizardo, um caboclo humilde da terra brasileira, é um contraponto ao major, é preguiçoso, analfabeto, mas se encanta e contagia com o ânimo do major. Embora seja antagônico à sua figura, ele tem habilidade com a enxada, e ensina o patrão, que passa o dia abrindo roças junto do caboclo, coisa impensável para um homem da elite e de letras naqueles tempos.

Policarpo vê quem é realmente o povo do país que ele tanto ama. Um amontoado de aleijados e subnutridos que habitam casebres de adobe e sapê e não são donos da terra. Então ele começa a dar parte de sua propriedade para o povo plantar, o que os grandes proprietários não veem com bons olhos. O clima chega ao ponto em que os coronéis ateiam fogo nos alojamentos dos pobres. O livro traz o embate da terra e a reforma agrária, que permeia a História do nosso país desde a sua fundação.

Trazendo notícias da cidade, homens do governo vão ao sítio de Policarpo pedir por apoio a um levante durante o episódio da Revolta da Armada. O oficial do governo começa a falar dos problemas de interesses partidários, para um Policarpo que nem dá ouvidos e espalha veneno para combater as saúvas.

- Ou o Brasil acaba com as saúvas, ou as saúvas acabam com o Brasil! – Frase mais conhecida da história.

Entusiasmado e embebido de idealismo, Quaresma se alista na guerra do lado legalista. Mas vai se decepcionar com os reais motivos do conflito. No filme tem uma passagem em que ele fala com o presidente, mostrando um memorial para resolver o problema do analfabetismo e educação das crianças, “o futuro do país”, e o presidente boceja, dizendo “Você é um visionário Quaresma! Essa guerra é para resolver os meus problemas, eu já tenho problemas pessoais demais para me preocupar com isso!”.

Barreto faz uma dura crítica ao positivismo, doutrina que permeou os quartéis e a República daqueles anos. Não vou contar o final da trama, mas a meu ver é um livro primordial para se entender o Brasil e nossa literatura. Escrito há mais de cem anos e com uma linguagem atual, além do tema.

Outro livro de Lima Barreto que me marcou muito foi “Os Bruzundangas”. Um país fictício inspirado nas hipócritas elites do nosso. Nesta sociedade, os “intelectuais” eram assim considerados por usarem uma linguagem erudita, termos requintados e afrancesados ou em latim, mas no fundo não dizem nada! Os jovens incapacitados de se graduarem nas faculdades mais difíceis, se dirigem às universidades de locais mais distantes do país, para conseguirem o diploma.

Lembro-me de uma passagem em que ele narra uma entrevista de emprego para o cargo de embaixador. Para a vaga se apresentam dois jovens, um louro, e outro negro. O negro se mostra mais capacitado, fala vários idiomas, formado em uma instituição de renome, enquanto o eurodescendente é um “burro” (mas rico) e membro da elite. Então, o entrevistador dispensa o jovem de origem humilde e contrata o “louro de olhos azuis”, pois ele causaria uma “melhor impressão” do país no estrangeiro. A elite queria mostrar para o mundo que o povo de Bruzundangas era “bonito” (nos padrões convencionais), ele não precisava ter capacidade intelectual, bastava saber sorrir e dançar valsa.

Ele fala da titulação “doutor”, atribuída a qualquer um que habita algum cargo de importância ou elevado, mesmo este nunca pisado em uma instituição educacional. Menciona o caso do fictício Felixhimino Bem Karpatoso, um deputado que falava muito bem de assuntos de finanças, orçamentos, impostos diretos e indiretos e demais coisas “cabalísticas” da ciência de obter dinheiro para o Estado. O tesouro da Bruzundanga, quase sempre vazio, precisava destes “magos” financeiros, para não se esvaziar de todo. No livro ele escreve: “Se era médico, advogado, engenheiro ou professor, ninguém sabe, mas o tratavam de doutor”.

O livro é atualíssimo, parece termos os mesmos problemas desde há cem anos, fazendo desta metáfora algo dos dias de hoje. Lima Barreto, o visionário que nunca viveu de seus livros, morreu pobre e louco, excluído da sociedade que era racista demais para aceitar um mestiço como intelectual, suas obras denunciam todas as mazelas de uma sociedade totalmente autoritária e desigual, inaugurando o pré-modernismo que viria a culminar na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922, ano de sua morte, onde o Antropofagismo encabeçado por Oswald de Andrade questionou a versão oficial da História do Brasil, apontando o dedo para a ferida e inspirando uma literatura mais popular, crítica e marginal, dando uma outra narrativa ao país, menos romântica, que muito deve a Lima Barreto e a sua produção.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Francisco Marins e as grandes aventuras

Por: David Vega.


Eu sempre fui um grande fã de livros de aventuras, cresci lendo os clássicos como Huck Finn e Tom Sawyer, bem como os heróis das grandes façanhas que muito colaboraram para minha imaginação, durante as várias noites em claro, ainda lá no sítio, onde podia viver estas “personas” junto de meus companheiros fazendo trilhas, subindo em árvores e experimentando uma infância incomum para as crianças da geração tecnológica de hoje.

Todos conhecem estas figuras da literatura norte-americana, se não pelos livros, pelas inúmeras adaptações no cinema, mas eu sempre indago a mesma questão; “Quem seria o nosso Mark Twain brasileiro?”. Na ponta da língua, muitos diriam “Monteiro Lobato”, quem organizou nosso folclore, defendeu o petróleo e traduziu os grandes autores, criando a primeira editora brasileira, a “Companhia Editora Nacional”, e apesar de controverso, acusado de racismo, é inegável a sua importância. Porém, há um outro autor, mais contemporâneo, também do interior paulista, que eu colocaria nesta equiparação dos grandes escritores de aventuras, Francisco Marins.

Nascido em Pratânia, mas radicado em Botucatu, criou o “Clubinho Taquara-Póca”, que visa difundir a vida rural e cultural de um Brasil profundo. É membro titular da Academia Paulista de Letras e já ganhou o prêmio Jabuti. Dedicou-se à literatura infanto-juvenil e tem seu nome na Oxford Children´s Literature, sendo o único escritor brasileiro a figurar na famosa coleção europeia Delphi, que reúne os clássicos da literatura juvenil de todo o mundo. Faleceu em 2016, mas seu legado segue vivo na criatividade de cada menino e menina que conheceu suas histórias.

                Tive acesso a seus livros através da reedição de alguns números pela coleção Vaga-Lume, da Editora Ática, famosa nos anos 1970-80, que eu adquiri na década de 90, pouco antes de ir para o antigo ginásio. Marins mistura eventos da História nacional com personagens fictícios que atravessam acontecimentos e vivem fatos verídicos, nos ensinando sobre nosso passado de uma forma lúdica e divertida, não deixando a desejar a nenhum “Indiana Jones” hollywoodiano. Os personagens são marcantes, quem leu não se esquece de Tonico e Perova pelo interior do Mato-Grosso em busca de diamantes, capturados por índios e perseguidos por bandeirantes, a expedição aos Martírios ou de Didico e seu fiel cãozinho Tiguera, em uma Canudos seguidora de Antônio Conselheiro durante a guerra.

Em “A Aldeia Sagrada”, Marins descreve um sertão assolado pela seca. O jovem Didico, de 12 anos, sonha em seguir os passos de seu padrinho, Chico-Vira-Mundo, que não conseguia ficar por muito tempo em um só lugar. Trazia a descrição de terras além de sua aldeia, na Bahia de 1897. O garoto cresceu idealizando uma vasta realidade fora de seu mundinho. Depois que seu boi, Pomboca, foi morto e lhe roubaram a carne, Didico e Tiguera partem em uma aventura que os leva até Canudos, na trama, há várias referências ao clássico de Euclides da Cunha, “Os Sertões”.

 


            Antônio Conselheiro foi uma espécie de místico popular que percorria o sertão, levando consigo uma legião de seguidores famélicos, em um Brasil dos primeiros anos da República. Acusado de ser monarquista, por se opor à separação da igreja e do Estado, Conselheiro liderava o assentamento de Canudos, que chegou a ter 25 mil habitantes, tornou-se uma ameaça para o novo regime, então, o presidente Pudente de Morais, o primeiro civil a ocupar o cargo, enviou o exército altamente equipado para derrotar os rebeldes, arrasando a cidade e aniquilando quase todos, que bravamente resistiram até o fim, o evento foi considerado um massacre.

              Há uma passagem em que ele narra quando levaram o Bendegó, o maior meteorito já encontrado no Brasil, para o Museu Nacional do Rio de Janeiro (que sofreu um incêndio em 2018). Marins, como amante da vida rural e da cultura do Brasil profundo, a cada capítulo do livro, deixa um glossário com palavras que compõem a vida do sertanejo, muitas, estranhas aos garotos da cidade. Descreve objetos e paisagens pela ótica do menino que não se difere de outro qualquer, trazendo uma proximidade ao leitor jovem do personagem. Eu me identifiquei muito quando li, estava na 7ª série, e contribuiu para a compreensão deste evento da História nacional. Anos depois fui ler a obra de Euclides, e em várias passagens eu lembrava de “A Aldeia Sagrada”.

            Outra série de aventuras de Marins que me marou muito foi a protagonizada por Tonico e Perova, dois aventureiros que partem em busca de um diamante destinado ao imperador, no Brasil do século XIX. No livro, o célebre escritor menciona a expedição Langsdorff, encabeçada por um alemão naturalizado russo de mesmo nome, que percorreu mais de dezesseis mil quilômetros Brasil adentro, registrando aspectos de nossa fauna e flora, classificando plantas, animais e insetos. O famoso artista Aimé-Antoine Taunay, filho do criador da Academia Imperial de Belas Artes, morreu afogado no Rio Guaporé durante a expedição. Este é o pano de fundo da jornada dos dois heróis brasileiros.

 


O livro é a continuação de “A Serra dos Martírios”, onde Marins menciona que o menino Antoninho, personagem da trama, avista de uma canoa a montanha das duas cabeças - este viria a ser anos depois o grande bandeirante Antônio Pires de Campos, que partiu para os sertões com seu pai, como era de costume na época. Os aventureiros partem em busca do índio Bugre-do-Chapéu-de-Anta, no Amazonas. Muito desta epopéia me lembra o icônico explorador inglês Coronel Percy Harrison Fawcett, que sumiu no Mato-Grosso quando procurava por uma cidade perdida no meio da selva, depois de viver entre os Kalapalos. Inclusive cheguei a escrever minhas próprias histórias de aventuras baseando-me nestas figuras, que em breve irei publicar.

Os livros são ricamente ilustrados, e me pergunto se ainda irão compor a imaginação de nossos jovens no mundo atual, imersos em realidades virtuais em que o jogador tem que decapitar o oponente e o sangue espirra na tela do televisor. Estas aventuras são atemporais, e se não quisermos uma sociedade composta de pessoas individualistas, sem contato algum com a natureza, materialistas ao extremo, onde a futilidade reina como uma religião, é resgatando estas façanhas educativas para nossas crianças, antes que seja “tarde demais”.

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