Comentário
sobre o pai da ficção científica, H.G. Wells, e seus clássicos "A Máquina
do Tempo", "O Homem Invisível" e "Guerra dos Mundos".
A partir de Wells, a literatura fantástica ganhou substância, influenciando
diversos autores depois dele e o Cinema, bem como seus livros ganharam
diferentes adaptações. Wells também se utiliza da metáfora política em seus
livros, sendo ele um defensor do trabalhismo e colaborador do Labour Party.
Inspirou inclusive o nosso Monteiro Lobato no romance de ficção "O Presidente
Negro", obra onde explicita as suas ideias controversas.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
H.G. Wells e a sua literatura fantástica
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Memórias de um Revolucionário - Victor Serge
Comentário sobre o livro "Memórias de um Revolucionário", de Victor Serge. Também faço uma breve introdução aos livros de John Reed - "Os 10 Dias que Abalaram o Mundo" e "México Insurgente", dos quais em algum vídeo futuro irei abordar. A Revolução Russa de 1917 e seu desfecho, a disputa entre bolcheviques e mencheviques, os vermelhos e o exército branco, os bandos stalinistas e trotskistas e a visão de um prisioneiro sobre a perseguição aos anarquistas e os expurgos são retratados neste vídeo.
Lima Barreto e suas obras - Intérpretes do Brasil
Comentário
sobre Lima Barreto, o pré-modernismo brasileiro e suas principais obras: O
Triste Fim de Policarpo Quaresma, Os Bruzundangas, Clara dos Anjos, Recordações
do Escrivão Isaías Caminha e O Homem que Falava Javanês. O racismo e a
hipocrisia escancarados em uma sociedade elitista que imita e importa
realidades sem correspondência com seu povo. Retrato os primeiros anos da
República sob o positivismo, a Revolta da Armada e o controverso presidente
Floriano Peixoto.
sábado, 20 de novembro de 2021
A Grande Ilusão
Por: David Vega
All
the King´s Men, no Brasil, “A Grande Ilusão” (não confundir com um livro de
mesmo nome sobre a Primeira Guerra Mundial), filme que mostra a ascensão de um
político que vem de baixo, tal história estamos cansados de ver com exemplos ao
longo dos séculos. Ambientado no estado da Louisiana, boa parte em New Orleans,
em meio aos arranjos de blues dos banjos e bandolins, o filme começa com o
assessor de Willie Stark (Sean Penn), que é o político em questão, falando em
ideologia, pronuncia a frase “o que você não conhece não te machuca”. O
jornalista que faz o papel de assessor dele é interpretado por Jude Law.
Stark
é um homem do povo que sabe ler a psiquê das massas. Muito disso ele usa na sua
profissão, um vendedor de cosméticos que bate de porta em porta, convencendo as
pessoas comprarem seus produtos. Um certo dia, é convidado para integrar um
partido político e conhece homens que estão dispostos a lança-lo como candidato
a governador, dadas às suas habilidades. Exímio orador, ele começa em seus
comícios a reunir cada vez mais pessoas, que vão ao delírio com suas promessas.
Em uma passagem do filme, lhe perguntam como ele consegue tal façanha, e ele
responde: “Eu falo o que eles querem ouvir, sobre impostos, obras, salários etc”.
O
filme tem vários diálogos interessantes. Em uma ocasião, Stark diz “uma vez lá
em cima, o homem esquece quem ele é, de onde veio” (nada mais comum e atual
quando vemos tais figuras na nossa política). Ele tem manias também que as usa
como bandeiras para reforçar sua personalidade como homem simples e do povo, a
mais notória, tomar refrigerante com dois canudinhos. Faz seus discursos de cabeça,
dispensa roteiros.
“Sou
caipira como vocês, não sou um acadêmico ou politico de carreira, cria do
sistema, um almofadinha!” – Enfatiza. Também sempre usa a palavra de Deus.
Põe
a culpa nos cidadãos das grandes cidades que enganam os caipiras, diz que sua
campanha é feita pelo dinheiro dele, que irá construir universidades para
todos, não só para os filhos dos ricos estudarem. O povo não apenas vê nele uma
esperança de mudança, mas se reconhece na sua figura, pois é “gente como a
gente”.
Os
velhos gordos do senado não votaram nele, o narrador, que é o jornalista que
conta a história, afirma que os políticos convencionais votam nos
representantes das petroleiras que lhes enchem os bolsos, mas mesmo assim, Stark
ganha para governador.
Ele
se torna populista e corrupto, representado no filme com as botas na mesa feito
um coronel, os encarregados lhe dizem que o Estado não tem verbas, dinheiro o
suficiente para ele fazer o que havia prometido, e sem entender de Economia,
não está nem aí, e manda eles se virarem para conseguirem pagar (nesse caso,
não existe um teto de gastos a ser respeitado, bem típico dos demagogos que
saem gastando adoidado com políticas públicas, muitas inúteis, que arrecadam
votos).
Outra
passagem interessante é um diálogo em que o jornalista indaga: “devo trabalhar
para quem? Para o Estado?”, e o governador eleito responde: “Não, para mim” – (me
lembrei nesse momento do “O Estado sou eu”, frase pronunciada por Luís XIV no
auge do absolutismo.
Destaco
também uma, em que um político tradicional da câmara diz: “Os políticos novos idiotas
pesam que o mundo é de graça, quem irá pagar toda demagogia? O contribuinte!”.
Desrespeitando
a Constituição do estado, ele consegue manipular o jornalista, que se torna
mais que seu assessor por debaixo dos panos, mas um fiel seguidor, publicando o
que interessa a seu chefe, fazendo panfletagem-propaganda do governo no jornal
a qual trabalha.
Stark
anda sempre com um gunslinger (pistoleiro), ágil e hábil no revólver, que é seu
guarda-costas, capaz de fazer tudo pelo chefe, até eliminar opositores. É aí
que aparece o personagem interpretado por Anthony Hopkins, representando os
conservadores que querem derrubar Stark. O jornalista se sente incomodado por
usar toda a sua erudição para defender um homem ignorante e rude, indo em
contra de todo seu polimento e crença na democracia. Ele se sente inclusive
envergonhado diante dos demais políticos que articulam uma movimentação pelo
impeachment de Stark, sobretudo porque o jornalista foi praticamente criado pelo
político conservador interpretado por Hopkins, e se vê diante de uma sinuca de
bico, pois não quer trair tudo o que aprendeu com seu velho mestre, que lhe ensinou
a ética e o real jogo legalista da política.
“Você
trabalha para mim pelo jeito que sou, é isso que te atrai” – Diz em certo
momento o governador autoritário para ele. No palanque, discursando, o déspota
diz que as velhas ratazanas da política querem derrubá-lo, e o povo se revolta
em seu apoio.
O
governador megalomaníaco almeja a Casa Branca, sonhando em ser presidente e
tornar todo o país hipnotizado por sua figura igual fez com seu estado pequeno.
Há uma passagem que ele (o jornalista) pergunta quem era o presidente em 1938, se
referindo ao banco, do qual investiga, para que se libere uma verba de que não
tem, destinada à construção de um hospital para o povão (os caipiras como ele
se refere), e a bibliotecária responde: “Franklin Delano Roosevelt”, então ele
fala que perguntava quem era o presidente do banco, não do país na época. Eu
não saberia dizer se é uma referencia ao imaginário do New Deal, medida que até
hoje é vista como populista pelos norte-americanos, devido a interferência do
Estado para se recuperar a economia depois do crash de 1929, idealizado por
Keynes, semelhante o que Vargas fez aqui no Brasil. Talvez tenha sido intencional,
para fazer uma analogia aos populistas.
A
paisagem do filme é muito bacana, me lembra quando morei na costa leste, na
Carolina do Sul, com os robles espanhóis (carvalhos) e os típicos musgos dos
pântanos com aligators. O personagem de Jude Law consegue uma carta para
incriminar e usar politicamente em favor do seu “patrão”, prejudicando Hopkins
- está cada vez mais atrelado e envolvido nas loucuras do governador. Ele emprega
um amigo de infância (Mark Ruffalo) falido que precisa de dinheiro para
participar dos projetos ousados do político, mas este fica entre a oportunidade
tentadora de enriquecer e sair daquela inércia, passando por cima de seus princípios,
pois ele parece ser um democrata, e salvar a sua biografia.
Stark
compra os juízes, a corte, disse que exige que o juiz esteja em seu favor, ou
ao menos não contra ele. Seus surtos histéricos lembra um pouco o Hitler
caricato, diferenciando-se pelo corte de cabelo e o bigode, é claro. Com o
tempo, opositores começam a ser mortos e perseguidos.
O
governador Stark se encaixa perfeitamente no déspota de direita ou de esquerda,
seu discurso populista lembra em vários momentos os bordões de Lula, Perón, ou
o imortal “Trabalhadores do Brasil” de Vargas, o autoritarismo não é algo
propício de um espectro apenas, e no momento, no mundo, vivemos o embate do
radicalismo de um lado, contra o do outro, não é tempo de moderação, e vejo
vários possíveis Starks por aí, gerando fanáticos, seduzindo e cooptando inclusive
intelectuais, como o jornalista porta-voz seu, cuja razão se manifesta por
vezes, e nos momentos de lucidez ele se pergunta “o que está fazendo”, mas logo
a aura exótica do carisma do projeto de ditador, o atrai, fazendo ele usar sua
habilidade da escrita e investigativa, para beneficiar o governador.
Tal
fato é bem comum na História. Ora, Hitler conseguiu cativar um dos povos mais
cultos da Europa, o país do Hegel, do Schopenhauer, Nietzsche, Goethe etc.
Muitos ainda se perguntam como isto foi possível, uma inflação astronômica que
faz um cidadão levar um carrinho cheio de marcos para comprar um pedaço de pão
pode explicar talvez.
As
crises vêm e vão, a questão é, você conseguirá se manter um democrata nas
situações adversas? Em tempos que a situação é acusada de não respeitar a
constituição, por aqueles que deveriam guardá-la, sendo arbitrário tanto quanto
ou pior?
É
claro que Hollywood faz uma crítica a este perfil de político, o carismático,
nenhuma obra de arte é isenta de intencionalidade, e um Perón sempre será visto
com bons olhos ainda por muita gente na Argentina, bem como Juan Gómez na
Venezuela ou até o Vargas no Brasil (ainda chamado de “pai dos pobres”). Eu
lembro uma vez de conversar com um turco enquanto esperava um avião na conexão no
aeroporto Ataturk em Istambul, e ele disse que o líder do qual o aeroporto leva
seu nome modernizou o país e os turcos devem muito a ele. Figuras assim,
personificadas, ao mesmo tempo que produzem ódio, também geram uma legião de
seguidores, que perpassam os tempos, muito diferente daqueles burocratas que
legislam apenas cumprindo ordens e não andam entre o povo, estes, depois de
seus mandatos ninguém os recordará.
quinta-feira, 18 de novembro de 2021
Todos os Homens do Presidente
Por: David Vega
Há
uns anos eu, nas minhas andanças pelo centro de São Paulo, encontrei em um Sebo
uma promoção de queima de estoque. Na leva, podia-se comprar livros e DVDs de
preço baixo. Minerando entre títulos muito fracos, eu encontrei entre uma pilha
de caixas de filmes um em especial. Na capa tinha a imagem de Dustin Hoffman e
Robert Redford. Eu já conhecia os filmes do Hoffman, ator que teve seu auge
durante os anos 1970, meus favoritos são o “Liberdade Condicional” e um outro
em que ele já era mais maduro, interpretando um autista, contracenando com o
Tom Cruise, na década seguinte, “Rainman”, cuja atuação é brilhante. Então,
devido o histórico deste que era um dos protagonistas, resolvi levar o filme,
convicto que seria uma boa escolha.
Ao
chegar em casa, acabei deixando o DVD de lado e nunca mais o peguei. Anos se
passaram e muitos dos meus filmes favoritos acabaram por migrar aos streamings,
então, quando queria rever algum, não me dava ao trabalho de ligar o aparelho
leitor dos discos. Porém, em um domingo mórbido, recentemente, arrumando
algumas tralhas antigas, voltei a encontrar o filme que comprei, empoeirado.
Finalmente, abri a caixa e decidi dar uma chance.
Bem,
o momento foi bem oportuno, dado semelhanças da trama ao cenário político
atual. Eu já tinha ouvido sobre o caso Watergate, mas após assistir à sessão,
pude compreender em detalhes. O filme tão misterioso é o “Todos os Homens do
Presidente”, produção de 1976, ganhadora de 4 Oscar, baseado no livro de Bob
Woodward (interpretado por Redford no filme) e Carl Bernstein (Hoffman) ambos
jornalistas que mudaram o curso da História americana após uma investigação
ousada e perigosa.
O caso Watergate foi um roubo de
documentos no complexo de escritórios que leva este nome em Washington, sede do
comitê nacional do Partido Democrata. O filme começa com 5 “ladrões” que teriam
invadido um dos escritórios e foram pegos pela polícia. A partir de então, os
dois jornalistas do Washington Post decidem averiguar o caso, pensando ser um
possível furo editorial (furo é o jargão
para a informação publicada antes de todos os demais, quando uma equipe
consegue apurar uma notícia e a publica sem que os veículos
concorrentes tenham acesso).
Woodward consegue a informação de que um tal
de Charles Colson, que possivelmente tinha ligações com agências de
inteligência dos EUA, era também novelista de ficções sobre investigação (a
arte imita a vida, a realidade é mais inverossímil que a ficção!). Descobrem
que um sujeito conhecido como Hunt (que trabalhou para Colson na Casa Branca) tomava
emprestado livros sobre Kennedy, deixando rastros no histórico de empréstimos
em uma biblioteca (a sua ficha de biblioteca pode dizer muito sobre você!
Denunciá-lo!). Colson era além de escritor, conselheiro do presidente Nixon.
Hunt também esteve à frente na campanha de
Eisenhower, em 1952. No julgamento dos 5 ladrões que foram detidos, entre eles
alguns cubano-americanos anticomunistas de Miami estavam envolvidos. O
jornalista então recebe uma mensagem de alguém que quer abrir o bico, pedindo
para ele deixar uma bandeira vermelha hasteada na sacada de seu apartamento, no
caso da resposta ser afirmativa, feito isso, ele vai ao encontro do possível
“traidor”, no estacionamento de um shopping já fechado.
Com o passar do filme, do qual o jogo de
câmeras proposital constrói uma narrativa envolvente, sendo outra coisa que
reparei, é que não tem trilha sonora, apenas os jingles de Nixon de sua
campanha à reeleição enquanto a TV está ligada nas noites em claro que os
jornalistas escrevem, o jovem em busca de um furo acaba sabendo que foi pago 25
mil dólares a um dos ladrões envolvidos em Watergate. Há um momento do filme
que os jornalistas encontram o recibo do cheque depositado, mudando o curso da
investigação.
Ligando as pistas, em pleno ano de eleição, muito
possivelmente os capangas do episódio estavam ligados ao comitê de reeleição do
presidente. Além de toda a trama no mundo da política, aliás, é para quem gosta
de filme de investigação, onde as pistas vão surgindo e se encaixando, fazendo
sentido, sobretudo no mundo do poder, muito antes do fenômeno House of Cards,
já havia este filme, pouco falado no Brasil. O interessante é que a
investigação ocorre com dois protagonistas que não são detetives de polícia,
mas jornalistas! Profissão que com o passar do tempo perdeu a essência para
criar acomodados leitores de teleprompter. A atitude dos dois personagens traz
um pouco daquele jornalismo de John Reed, Victor Serge ou Hemingway, o
investigativo, que é na verdade quase uma etnografia antropológica.
Outro ponto relevante também é a relação dos
mesmos enquanto estão no processo de criação da matéria com o editor chefe. Ali
na redação, como em qualquer instituição composta por pessoas, há diferentes
pontos de vista, e ir contra o governo, pode desagradar os que de alguma forma
possuem ligação com ele, ou apenas por convicções pessoais concordam com quem
está no poder. O que o jornalista preocupado com os fatos e não com a opinião
deve fazer então? Há uma passagem do filme que mostra os editores manipulando
as notícias através dos recortes, selecionando frases e chamadas que
interessam, e ocultando outras. É bacana o ambiente do filme, mostrando como
funciona uma redação de um jornal grande, nos anos 1970, podemos ver os periodistas
em suas máquinas de escrever, fumando cigarros e usando calças boca de sino.
O editor ao passar do tempo começa a se
contagiar pelo trabalho dos dois jornalistas. Porém afirma em certo momento que
se a história do Watergate for falsa, é perigoso se estiverem enganados,
podendo comprometer a legitimidade do veículo de imprensa, publicando algo
contra um governo na época com popularidade (naquela época ainda havia um pouco
de ética).
Eles conseguem uma lista com o nome de todos
que trabalhavam para o presidente, nisso, recebem a notícia de que Richard
Nixon é reeleito. Enfim, não vou mais dar spoiler, apesar de todos que gostam
de História conhecerem o desfecho do caso. O caso Watergate na verdade revelou que
o governo de Nixon usava o FBI e a CIA para investigar a oposição e plantar
notícias falsas contra seus rivais, igual fazia a Gestapo ou a KGB. O “roubo”
do complexo, na verdade foi uma desculpa para técnicos repararem aparelhos de
escuta telefônica que possivelmente estavam danificados. Atitude ilegal durante
a eleição, pois o candidato à reeleição estava se utilizando de medidas
trapaceiras.
A imbricação do jornalismo com a política,
quando uma se torna um braço da outra, é perigosa. E aqui não estou entrando no
mérito se é “direita” ou “esquerda”. É triste ver o que se tornou o jornalismo
no mundo hoje, de um lado uma espécie de militância de agendas e pautas visando
a narrativa de um politicamente correto através do que vulgarmente se chama no
Brasil de “lacração”, e do outro, veículos destinados a justificar qualquer
atitude de quem está no poder, feito a Telesur quando entrevistava o Hugo
Chávez. Ora, as atitudes desonestas para se alcançar os objetivos na política
sempre existiram, lembram do incêndio do Reichstag, quando culparam os
comunistas? As cartas falsas de Arthur Bernardes? Ou o Plano Cohen, que
justificou o golpe do Estado Novo no Brasil? – “O fim justifica os meios” – já
dizia Maquiavel (embora alguns afirmem que ele nunca teria escrito isso). É bem
diferente dos processos legais contra presidentes que sofreram impeachment,
feito o Collor, por conta do Fiat Elba e o caso PC Farias ou as pedaladas de
Dilma Roussef. Estamos falando de casos em que realmente houve uma
arbitrariedade.
Lembro de um colega de faculdade filiado a um
partido de esquerda que reclamava, na época, por volta de 2011, que os
norte-americanos sempre usavam a desculpa da Constituição para justificar as
suas medidas, sendo ele um defensor da “revolução”, não conseguia entender o
porquê deles não enxergarem além do legalismo. Enfim, hoje, eu vejo a esquerda,
que é oposição, fazer exatamente o mesmo, vivem citando a Constituição (que o
PT não votou nos 80) como se fossem guardiões desta. Cada lado do jogo político
em questão invoca sua interpretação das quatro linhas. Vivemos hoje no mundo um
cenário diferente, em que não existe mais o fato em si, seria a pós verdade?
Não existe mais uma “versão oficial” da notícia. O que eu vejo com bons olhos,
pois hoje, um sujeito com um celular de dentro de seu quarto pode competir com grandes
conglomerados de mídia, que convenhamos, também reproduzem Fake News visando os
seus interesses. A mídia sempre fez isso! Antes era a mais criticada pela
oposição, agora que reproduzem o discurso que querem ouvir ela se tronou santa?
(o mesmo em relação à suprema corte). A mídia convencional sempre teve o poder
de construir óticas “aceitas” pela massa e eleger ou derrubar quem quisesse,
destruindo reputações. Nunca me esqueço do caso do sequestro de Abílio Diniz,
embora fui me interessar posteriormente, pois na época era muito criança. Do
qual a emissora mais influente do país reinava em absoluto, desrespeitando a
Constituição, que hoje se creem ser os reais guardiões.
Há um trecho do filme em que o editor diz, e
faço dele as minhas palavras, que o que realmente importa naquela investigação
toda é fazer valer o artigo primeiro da Constituição (dos EUA); a Liberdade de
expressão e imprensa. Que isto sirva não só para governantes tidos como
despóticos, mas para a suprema corte, que possui ministros com poderes
concentrados inflados que a desrespeitam, perseguindo pessoas por crime de
opinião. Não é por acaso, e faz sentido, o sujeito se considerar um preso
político atualmente. A histeria tomou conta de uma sociedade mundial
polarizada, do qual o processo eleitoral pode sim ser questionado, pois ninguém
mais confia no sistema e se sente representado pelas instituições.
Sabemos que Hollywood majoritariamente é pró
Partido Democrata, e é claro que vão endossar a narrativa contra os
republicanos, salvo quando é uma figura histórica como o Lincoln. É preciso
analisar friamente as coisas, óbvio que Nixon errou, o que causou seu
impeachment em 1974, tendo ele renunciado logo depois. O termo “gate” nos
países de língua inglesa, após o episódio, se tornou uma gíria para
“escândalo”. Não compro o discurso de nenhum lado, mas reconheço que sobretudo
no cenário global hoje, todos desrespeitam a democracia e fazem Fake News em
nome de seus objetivos, sendo hipocrisia acusar só os opositores daquilo que
você também faz.
Assistindo um filme de investigação
jornalística que mudou a História como esse, vejo o quanto os profissionais de
hoje da área são mesquinhos e revira o estômago acompanhar o que a categoria se
tornou hoje.
quarta-feira, 1 de setembro de 2021
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
Liam (2000)
Por: David Vega.
Liam é um garoto que tem dificuldade de
falar, mas seus olhos já dizem muito. Ele é o mais novo de uma família de
ingleses da Liverpool dos anos 1930. Os personagens do filme não tem nome,
apenas o garotinho que a tudo observa como espectador das transformações de sua
família, estas também são as da sociedade marcada pela crise pós 1929 e o
crescente desemprego, com isso, os trabalhadores humilhados pela falta de
trabalho, começam a se seduzir pelos discursos do Partido Comunista. O irmão
mais velho de Liam adentra às fileiras dos vermelhos, enquanto com o passar do
tempo, o pai (interpretado pelo grande ator britânico Ian Hart do célebre “Terra
e Liberdade”) passa a culpar os irlandeses e os judeus pela crise. O pai, que
no início do filme não se importa quando os vizinhos perdem seus empregos,
dizendo que ele ainda tem o dele (uma espécie de distinção, ele se vê como
diferente dos demais por conta disso), tão logo se torna mais um dos
desempregados que precisa se sujeitar à fila do seguro social que lhe dá
migalhas.
Em paralelo, Liam está prestes a fazer a sua
primeira comunhão, e o pai também começa a culpar os católicos e os padres que
seriam parasitas, com o argumento nacionalista de que os verdadeiros ingleses
são protestantes, segundo ele os sacerdotes católicos viviam de doações de
poucos xelins suados dos moradores do bairro operário, quase que um cortiço, visivelmente
degradado. No início do filme, pouco antes da crise, as famílias se reuniam e
celebravam o ano novo, já no decorrer, os moradores começam a pedir dinheiro
emprestado uns aos outros, e brigas surgem, por conta de cada moeda que faz
diferença no orçamento da casa. A desunião, além da questão financeira, vem com
a polarização política, em uma passagem do filme, o pai aparece em um comício
do Oswald Mosley, líder da British Union of Fascist (BUF) e seus camisas
negras. Desentendimentos em casa se intensificam com o filho mais velho que é comunista.
Não bastasse isso, a filha do meio consegue
um emprego de doméstica em uma casa de família judia, e a dona passa-lhe a meio
que adotá-la, a vesti-la e alimentá-la, dando presentes e perfumes, mostrando-a
um mundo muito distante da vila operária de onde ela vem. Ela precisa esconder
de seu pai fascista que o dinheiro que traz em casa vem de uma patroa judia.
Cada vez mais humilhado por não conseguir emprego, o pai vestindo o uniforme
dos fascistas começa a se radicalizar, inclusive a participar de atentados.
Liam ao mesmo tempo que presencia tais crises, é assombrado pelo medo do pecado
que o professor padre de sua escola incute nas crianças.
É um filme sensível, apresenta o que somos
capazes de fazer no limite da solidariedade humana, esta que é solapada por um
individualismo vindo de todos os lados, por aqueles que precisam pensar no
estômago dos seus antes da fome do vizinho. É na crise que as pessoas mostram
quem são, e na radicalização política, não sobra tempo para o convívio dos
contrários, mesmo entre pai e filho.
Impactante! Há tempos me foi recomendado por
um amigo ainda no Ensino Médio, e só fui assistir hoje. Tem completo dublado em
espanhol no YouTube, recomendo, é baseado em um livro de Joseph Mckeown, que ainda irei ler, pois se o
filme consegue sintetizar todo o espírito da crise e o lado mais obscuro da
natureza humana, imagino que a obra escrita proporciona diálogos ímpares!
Assistir a este filme, dirigido por Stephen
Frears nos tempos de hoje não é apenas uma reflexão, mas proporciona aquilo que
a arte sempre fez, nos dá combustível para lutar, ou apenas ver as entrelinhas,
que não são nem tão subjetivas assim, em uma realidade bruta que nos assola, lembrando
muito a Liverpool e a Europa como um todo dos anos 1930.
Leões e Cordeiros (Lions for Lambs)
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